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5 perguntas a…

30 de Julho de 2020

“Este processo trouxe importantes desdobramentos para o público participante, ao fomentar o interesse pela dança, mas principalmente pela experiência artística do projeto"

5 perguntas a…

Bernardo Guiamba (Pak Ndjamena), coreógrafo, bailarino e performer, residente em Maputo, beneficiário de uma bolsa no âmbito do projeto PROCULTURA PALOP-TL, financiado pela União Europeia, cofinanciado e gerido pelo Camões, I.P. e cofinanciado também pela Fundação Calouste Gulbenkian. Desenvolveu uma residência artística, responsável pela mostra coreográfica “Corpos Híbridos”, que teve lugar no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, em fevereiro passado, e que contou com a participação de bailarinos moçambicanos e brasileiros.

O projeto da União Europeia PROCULTURA PALOP-TL – Promoção do Emprego nas Atividades Geradoras de Rendimento no Setor Cultural nos PALOP e Timor-Leste disponibiliza 60 bolsas para frequência de residências artísticas internacionais nas áreas da Música e das Artes Cénicas através de concursos, entre 2019 e 2021, para cidadãos nacionais dos PALOP ou de Timor-Leste e residentes nestes países. PROCULTURA PALOP-TL é uma Ação do Programa Indicativo Multianual PALOP – Timor-Leste e União Europeia, financiada pela União Europeia, cofinanciada e gerida pelo Camões, I.P. e cofinanciada também pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 2020, o concurso decorre entre 1 de junho e 30 de setembro. Para mais informação consulte o regulamento disponível em: https://gulbenkian.pt/programas/parcerias-desenvolvimento/ 

Qual era a sua expectativa quando se candidatou a uma residência artística no âmbito do PROCULTURA PALOP-TL?

A minha expectativa ao candidatar-me à residência artística no âmbito do PROCULTURA PALOP-TL foi de ver realizada a minha pesquisa de criação coreográfica com outros bailarinos (partilhas e trocas de conhecimentos artísticos), em primeiro lugar; em segundo lugar, tem a ver com circulação da obra, adquirir novos links de contactos no circuito internacional de trabalhos altamente qualificados. Penso ter conseguido obter bons resultados, no entanto, continuo almejando por oportunidades de apresentação do espetáculo em outros lugares / países..

Pode descrever o processo criativo no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro que decorreu durante a residência?

Os métodos aplicados no processo criativo foram a partir das oficinas de dança contemporânea regulares, que serviram de bases para a criação, através da interação dos bailarinos, o que me permitiu experimentar diversas formas de expressão corporal.

Na primeira fase da residência, o trabalho desenvolveu-se pela pesquisa coreográfica com o grupo, com exercícios e ritmos focalizados numa linguagem contemporânea que investiga também importantes questões sobre o corpo, espaço, tempo, tensão entre o controle e liberdade, o sujeito e a relação com a sociedade, tendo o indivíduo como foco.

As pesquisas coreográficas refletiram-se naquilo que são as possibilidades de despertar e tornar possível desenvolver uma partitura autêntica e original em qualquer corpo, sem a necessidade de padrões estéticos, grandes técnicas que exijam uma longa experiência; e sim apresentar ferramentas para busca de uma inscrição coreográfica coerente as representações, através de pesquisas teóricas, vídeos, factos históricos e a própria história de vida de cada participante.

Na segunda fase da residência, a última, bastante enriquecedora, todos já estavam integrados no propósito do objeto artístico, com ferramentas para criação de fragmentos para mostra do resultado final.

Compartilhámos a ideia e o seu processo criativo investindo em processos de mediação entre o espetador e a obra, potencializando a fruição do objeto artístico. Este processo trouxe importantes desdobramentos para o público participante, ao fomentar o interesse pela dança, mas principalmente pela experiência artística do projeto.

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De que forma o resultado da residência, a mostra coreográfica “Corpos Híbridos”, traduz o encontro com quem conheceu no âmbito desta residência?

O grupo de bailarinos com quem trabalhei foi pré-selecionado por meio ou em função das suas habilidades artísticas, tendo participado cerca de metade dos candidatos. O grupo era composto por bailarinos amadores, semiprofissionais e profissionais.

Durante a residência, o ambiente vivido foi de muita partilha de vivências e saberes culturais, usando os métodos acima referidos como forma de dinamizar este espaço de experiências interculturais. Os participantes, cada um com o seu conhecimento artístico, proveniências e background diversos, tornou o trabalho ainda mais diversificado na pesquisa coreográfica que se apresentou.

Esta residência suscitou aos participantes a capacidade de cada um deles em explorar seu corpo; alguns disseram o seguinte: “nunca pensei que pudesse fazer este movimento”; “doía antes, mas agora não dói porque descobri a técnica”; “como é que é possível a partir de pequenos gestos, de que às vezes não damos conta, criar uma dança?”, etc.!

Foi neste ambiente de consolidação artística que muitos dos participantes se viram motivados em desenvolver seus trabalhos individuais; além disso, foi um resultado bastante importante para o projeto, mas também para a disseminação da dança contemporânea em muitas das suas manifestações.

A pesquisa de criação coreográfica trouxe novas possibilidades para o trabalho final a solo (“Deus nos Acudi”). Vários corpos num só corpo, várias representatividades, muita reflexão sobre o tema artístico, onde o corpo era o principal objeto. Os fragmentos desenvolvidos com o grupo, trouxeram para mim elementos fortes para desenvolver partituras coerentes as representações.

Foram oito dias de residência artística de pesquisa e criação coreográfica, duas horas e meia de prática por dia, mais um dia da apresentação do resultado ao público, onde de seguida houve uma conversa aberta para a reflexão crítica do trabalho visionado.

A apresentação foi realizada no dia 15 de Fevereiro de 2020, às 17 horas, numa das salas do Centro Coreográfico, indicada para apresentações informais. Concluo que os resultados da residência foram bem alcançados, com uma excelente apresentação, e ao mais elevado nível de profissionalismo por parte dos participantes; o público era de todas as idades, composto por familiares e amigos dos participantes, convidados e o público no geral.

O público reagiu profundamente com muitas observações, muitas delas com carga emocional, e parabenizaram a todos e ao trabalho desenvolvido.

Devo crer que foi dos meus trabalhos artísticos, partilhado com um grupo de bailarinos, um deles com deficiência física, em que a receção de feedbacks foi mais positiva. Bem-haja a dança contemporânea!

Além disso, os participantes partilharam com o público exprimindo em palavras o desempenho de cada um, descobrimentos e habilidades que seus corpos geraram durante as práticas na residência; também agradeci pela coragem, paciência e a partilha.

Por que razão foi importante sair de Moçambique para desenvolver este projeto?

Foi importante sair de Moçambique para desenvolver o projeto pelas razões seguintes: colher outras experiências e conhecer uma outra realidade, através do trabalho artístico, possibilitando também a circulação da obra e promovendo o intercâmbio artístico-cultural.

O que diria a um artista que pondera candidatar-se a uma residência artística PROCULTURA?

Eu incentivava-o, aliás, tenho desempenhado um papel importante de ativismo cultural cá em Maputo, sobretudo para os bailarinos que têm interesse em submeter suas candidaturas às bolsas de residências artísticas. O facto de ter criado links de contactos em Brasil permite-me direcionar os artistas para espaços que tenham interesse em recebê-los, para além de fazer coaching e revisão de alguns projetos em que sou solicitado para intervir.

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