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Quando o teatro cria hábito: Dério Quinto e a força do “Teatro na Sexta”

  • São Tomé e Príncipe

3 de Fevereiro de 2026

Em São Tomé, onde a cultura tantas vezes vive de esforços pontuais, o “Teatro na Sexta” nasce como um gesto de resistência e consistência. Idealizada por Dério Quinto, a iniciativa propõe algo simples e transformador: fazer do teatro um encontro regular, acessível e profissional. Um espaço onde artistas e público se reconhecem, quinzenalmente, à sexta-feira.

A ideia do Teatro na Sexta não nasceu de um grande plano estratégico, mas de uma ausência sentida no dia a dia. Havia espetáculos prontos, artistas disponíveis e vontade de criar. Faltava, porém, um hábito. Um palco fixo. Uma regularidade que o público pudesse antecipar.

Foi dessa lacuna que surgiu a iniciativa liderada pelo ator Dério Quinto: criar um ponto de encontro quinzenal, um ritual cultural onde todos sabem que, na segunda e na quarta sexta-feira de cada mês, há teatro na cidade. Mais do que um evento, trata-se de consistência. De dar à cultura o espaço permanente que ela merece.

O objetivo é claro e assume duas frentes. Por um lado, profissionalizar: criar uma plataforma que gere receita direta para os artistas, reforçando a ideia de que o trabalho cultural é trabalho e deve ser remunerado. Por outro, democratizar: aproximar o teatro das pessoas, tirá-lo de um lugar distante ou elitizado e torná-lo acessível, habitual e próximo.

A Casa de Artes, Cultura, Ambiente e Utopia — CACAU — tornou-se o palco fixo do Teatro na Sexta. Mais do que um espaço físico, a CACAU funciona como um verdadeiro vetor cultural. A sua centralidade, aliada a uma energia artística já enraizada, cria as condições ideais para acolher espetáculos e atrair públicos diversos, oferecendo um ambiente técnico e humano favorável à criação.

As peças apresentadas vão da comédia ao drama. As reações do público têm validado o propósito da iniciativa. Entre silêncios atentos, lágrimas contidas, gargalhadas contagiantes, longos aplausos e conversas que se prolongaram para lá do palco. Para Dério Quinto, esta receção é reveladora: o público santomense procura mais do que entretenimento. Procura histórias que o representem, que provoquem reflexão e conexão emocional, reforçando, deste modo, a relevância artística da agenda cultural proposta.

Segundo Dério, o feedback do público tem sido profundo e revelador. Não se resume ao “gostei”. Muitas pessoas aproximam-se para partilhar como aquelas palavras ecoaram nas suas próprias vidas. Outras confessam um desejo inesperado: “Eu também queria entrar no palco.” Para quem organiza, este é talvez o maior elogio, sinal de que o teatro deixou de ser distante e passou a ser vivido como possibilidade.

A regularidade quinzenal tem um papel central na formação de novos públicos. Ao deixar de ser um acontecimento excecional, o teatro transforma-se num programa possível. Quem vem por curiosidade e vive uma boa experiência, regressa. E, muitas vezes, traz alguém consigo. Assim se constrói um público fiel, mais crítico, mais exigente e, por isso mesmo, fundamental para o crescimento artístico do país.

Manter uma agenda cultural regular, no entanto, não é simples. O maior desafio continua a ser sustentar a consistência num contexto onde ser artista ainda não é reconhecido como profissão. Garantir produção contínua exige persistência, articulação constante e uma procura permanente por soluções.

Para assegurar qualidade e diversidade, o Teatro na Sexta aposta numa programação aberta e plural. Diferentes grupos, estéticas e linguagens performativas são convidados a integrar a agenda. Existe um processo curatorial simples, mas rigoroso, que inclui ensaios técnicos e gerais no espaço, assegurando condições de luz, som e encenação adequadas. É a comunidade artística a trabalhar em conjunto.

A médio prazo, Dério Quinto vê o Teatro na Sexta como uma escola informal para artistas e para o público. Muitos criadores estão a pisar, pela primeira vez, um palco com condições técnicas apropriadas. A longo prazo, acredita que esta regularidade ajudará a lançar as bases de uma verdadeira indústria cultural em São Tomé e Príncipe, demonstrando que é possível viver da arte com planeamento, qualidade e continuidade.

A parceria com a RoçaMundo tem sido fundamental para a sustentabilidade do projeto. Mais do que apoio financeiro, representou um voto de confiança decisivo, sobretudo no início. Foi esse gesto que permitiu transformar o sonho do Teatro na Sexta em realidade e provar que, quando vontades se alinham em prol da cultura, o impacto multiplica-se.

“O futuro passa agora pela expansão. Levar o Teatro na Sexta a outros distritos do país é um desejo que estamos a amadurecer. A ideia é criar um circuito cultural, adaptando os espetáculos aos diferentes espaços e contextos locais, para ampliar o alcance e reforçar a descentralização cultural. Porque, quando o teatro cria hábito, cria também comunidade, pensamento crítico e futuro”, afirma Dério Quinto.

No ano passado, Dério foi reconhecido como uma das 100 Personalidades mais Influentes da Lusofonia pela Power List da Bantumen.

 

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